sábado, 27 de setembro de 2008
Da natureza como um poder
Poder é uma faculdade que se sobrepõe a grandes obstáculos. O mesmo chama-se força quando se sobrepõe também à resistência daquilo que possui ele próprio poder. A natureza considerada no juízo estético como poder que não possui nenhuma força sobre nós, é dinamicamente-sublime. Se a natureza deve ser julgada por nós dinamicamente como sublime, então ela tem que ser representada como suscitando medo seja considerado sublime no nosso juízo estético). Pois no julgamento estético (sem conceito) a superioridade sobre obstáculos pode ser ajuizada somente segundo a grandeza da resistência. Ora aquilo ao qual nos esforçamos por resistir é um mal e, se não consideramos a nossa faculdade à altura dele, é um objecto de medo. Portanto para a faculdade de juízo estética a natureza somente pode valer como poder, por conseguinte como dinamicamente-sublime, na medida em que ela é considerada como objecto do medo. Pode-s porém considerar um objecto temível, sem o temermos na sua presença nomeadamente quando o ajuizamos imaginando simplesmente o caso em que porventura quiséssemos opor-lhe resistência e que em tal caso toda resistência seria perfeitamente vã. Assim o virtuoso teme a Deus sem temer diante dele, porque querer resistir a Deus e aos seus mandamentos não é um caso que ele considere preocupá-lo, mas em cada um desses casos, que ele não considera como em si impossível, reconhece-o como temível. Quem teme não pode absolutamente julgar sobre o sublime da natureza e tão pouco pode julgar sobre o belo quem é tomado de inclinação e apetite. Aquele foge da contemplação de um objecto que lhe incute medo; e é impossível encontrar comprazimento num terror que fosse tomado a sério. Por isso o agrado resultante da cessação de uma situação penosa é o contentamento. Este porém, devido à libertação de um perigo, é um contentamento com o propósito de jamais nos expormos de nova a ele; não gostamos de recordar ma vez sequer aquela sensação, quanto mais procurar a ocasião para tanto. Rochedos audazes e proeminentes, por assim dizer ameaçadores, nuvens de trovões acumulando-se no céu, avançando com relâmpagos e estampidos, vulcões na sua inteira força destruidora, furacões deixando para trás devastação, o ilimitado oceano revolto, uma alta queda d’água de um rio poderoso, etc., tornam a nossa capacidade de resistência de uma pequenez insignificante em comparação com o seu poder. Mas o seu espectáculo só se torna tanto mais atraente, quanto mais terrível ele é, contanto que, somente, nos encontremos em segurança; e de bom grado denominamos estes objectos sublimes, porque eles elevam as forças da alma sobe a sua medida média e permitem descobrir em nós uma faculdade de resistência de espécie totalmente diversa, a qual nos encoraja a medir-nos com a aparente omnipotência da natureza. Pois, assim com na verdade encontramos a nossa própria limitação na incomensurabilidade da natureza e na insuficiência da nossa faculdade para tomar um padrão de medida proporcionado à avaliação estética da grandeza do seu domínio, e contudo também ao mesmo tempo encontramos na nossa faculdade da razão um outro padrão de medida não sensível, que tem em si como unidade aquela própria infinitude e em confronto com o qual tudo na natureza é pequeno, por conseguinte encontramos no nosso ânimo uma superioridade sobre a própria natureza na sua incomensurabilidade: assim também a irresistibilidade do seu poder nos dá a conhecer, considerados como entes da natureza, a nossa impotência física, mas descobre ao mesmo tempo uma faculdade de ajuizar-nos como independentes dela e uma superioridade sobre a natureza, sobre a qual se funda uma autoconservação de espécie totalmente diversa daquela que pode ser atacada e posta em perigo pela natureza fora de nós, com o que a humanidade em nossa pessoa não fica rebaixada, mesmo que o homem tivesse que sucumbir àquela força. Dessa maneira a natureza não é ajuizada como sublime, no nosso juízo estético, enquanto provocadora de medo, porque ela convoca em nós a nossa força (que não é natureza) para considerar como pequeno aquilo que nos preocupa (bens, saúde e vida) e por isso contudo não considerar o seu poder (ao qual sem dúvida estamos submetidos com respeito a essas coisas) absolutamente como uma tal força para nós e para a nossa personalidade, e sob a qual tivéssemos que nos curvar, quando se tratasse dos nossos mais altos princípios da sua afirmação ou seu abandono. Portanto a natureza aqui chama-se sublime simplesmente porque ela eleva a faculdade da imaginação à apresentação daqueles casos nos quais o ânimo pode tornar capaz de ser sentida a sublimidade própria do seu destino, mesmo acima da natureza. Esta auto-estima não perde nada pelo facto de termos de nos sentir seguros para poder sentir este comprazimento entusiasmante; por conseguinte o facto de o perigo não ser tomado a sério não implica que (como poderia parecer) tão pouco se tomaria a sério a sublimidade da nossa faculdade espiritual. Pois o comprazimento concerne aqui somente ao destino da nossa faculdade que se descobre em tal caso, do mesmo modo que a disposição a esta se encontra na nossa natureza, enquanto o desenvolvimento e exercício dessa faculdade nos é confiado e permanece obrigação nossa. E isto é verdadeiro, por mais que o homem, quando estende a sua reflexão até aí, possa ser consciente da sua efectiva impotência momentânea. Este princípio na verdade parece ser demasiadamente pouco convincente e demasiadamente racionalizado, por conseguinte exagerado para um juízo estético; todavia a observação do homem prova o contrário, isto é que ele pode estar no fundamento nos julgamentos mais comuns, embora não se seja sempre consciente do mesmo. Pois que é isto que mesmo para o selvagem é um objecto da máxima admiração? Um homem que não se apavora, que não teme, portanto que não cede ao perigo, mas ao mesmo tempo procede energicamente com inteira reflexão. Até no estado maximamente civilizado prevalece este apreço superior pelo guerreiro; só que ainda se exige, além disso, que ele ao mesmo tempo comprove possuir todas as virtudes da paz, mansidão, compaixão e até conveniente cuidado pela sua própria pessoa: justamente porque nisso é conhecida a invencibilidade do seu ânimo pelo perigo. Por isso se pode ainda polemizar tanto quanto se queria na comparação do estadista com o general sobre a superioridade do respeito que um merece perante o outro; o juízo estético decide em favor do último. Mesmo a guerra, se é conduzida com ordem e com sagrado respeito pelos direitos civis, tem em si algo de sublime e ao mesmo tempo torna a maneira de pensar do povo que a conduz assim, tanto mais sublime quanto mais numerosos eram os perigos a que ele estava exposto e sob os quais tenha podido afirmar-se valentemente. Contrariamente uma paz longa encarrega-se de fazer prevalecer o mero espírito empreendedor, porém com ele o baixo interesse pessoal, a covardia e moleza, e ainda de humilhar a maneira de pensar do povo. Parece entrar em conflito com esta análise do conceito de sublime, na medida em que este é atribuído ao poder, o facto de que nas intempéries, na tempestade, no terramoto, etc., costumamos representar Deus em estado de cólera, mas também apresentando-se na sua sublimidade. Contudo a imaginação de uma superioridade do nosso ânimo sobre os efeitos e, como parece, até sobre as intenções de um tal poder, seria tolice e ultraje ao mesmo tempo. Aqui nenhum sentimento da sublimidade da nossa própria natureza, mas muito mais submissão, anulação e sentimento da total impotência parece ser a disposição do ânimo que convém ao fenómeno de um tal objecto, e que também usualmente se esforça por estar ligada à ideia do mesmo em semelhante evento da natureza. Na religião em geral parece que prosternação, adoração com cabeça inclinada, com gestos e vozes contritos cheios de temor, são o único comportamento conveniente em pesença da divindade, que por isso também a maioria dos povos adoptou e ainda observa. Todavia tão pouco esta disposição do ânimo está em si e necessariamente ligada à ideia da sublimidade de uma religião e do seu objecto. O homem que efectivamente teme, porque ele encontra em si razão para tal, enquanto é autoconsciente de com a sua condenável atitude ofender um poder, cuja vontade é irresistível e ao mesmo tempo justa, não se encontra absolutamente na postura mental para admirar a grandeza divina, para o que são requeridos uma disposição à calma, contemplação e um juízo totalmente livre. Somente quando ele é auto-consciente de sua atitude sincera e agradável a Deus, aqueles efeitos do poder servem para despertar nele a ideia da sublimidade deste ente, na medida em que ele reconhece em si próprio uma sublimidade da atitude conforme àquela vontade e deste modo é elevado acima do medo face a tais efeitos da natureza, que ele não considera como expressões da sua cólera. Mesmo a humildade, como o julgamento não conveniente das suas falhas, que na consciência de boas atitudes facilmente poderiam ser encobertas com a fragilidade da natureza humana, é uma disposição mental sublime de submissão espontânea à dor da auto-repreensão para eliminar pouco a pouco a sua causa. Unicamente deste modo se distingue internamente religião de superstição, a qual não funda no ânimo veneração pelo sublime, mas medo e angústia diante do ente todo poderoso, a cuja vontade o homem aterrorizado se vê submetido, sem contudo a apreciar muito; donde certamente não pode surgir nada senão grangeamento de favor e de simpatia em vez de uma religião da vida recta. Portanto a sublimidade não está contida em nenhuma coisa da natureza, mas só no nosso ânimo, na medida em que podemos ser conscientes de ser superiores à natureza em nós e através disso também à natureza que nos é extremamente (na medida em que influi sobre nós). Tudo o que suscita este sentimento em nós, a que pertence o poder da natureza que desafia as nossas forças, chama-se então (ainda que impropriamente) sublime; e somente sob a pressuposição desta ideia em nós, e em referência a ela, somos capazes de chegar à ideia da sublimidade daquele ente, que nos provoca íntimo respeito não simplesmente através do seu poder, que ele demonstra na natureza, mas ainda mais através da faculdade, que em nós está colocada, de ajuizar sem medo esse poder e pensar o nosso destino como sublime acima dele.
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